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Caso banco Société Générale (SocGen): A longa jornada de Kerviel até a prisão

Societe generaleEm um caminho de terra ressecado pelo sol em um vinhedo no norte da Itália, ouve-se a sirene distante de um carro de polícia. Jérôme Kerviel para, levanta a cabeça e olha em volta. A sirene pode significar que finalmente, seis anos após ter executado negócios não autorizados avaliados em € 50 bilhões, o ex-funcionário do banco Société Générale (SocGen) irá para a prisão.

“Pode ser esta tarde, pode ser amanhã, na semana que vem ou mesmo quando eu cruzar a fronteira com a França”, diz o homem de 37 anos que no mês passado teve uma apelação final recusada pela mais alta corte criminal da França.

Como o operador desonesto chegou nessas colinas a apenas 100 quilômetros da fronteira francesa, onde nos encontramos, é uma longa história que ele se esforça para explicar. Em janeiro, ainda aguardando o resultado de uma prolongada sequência de julgamentos, apelações e sentenças, ele ficou tão “agoniado” que pensou em se suicidar. Então, com o apoio do monsenhor Jean-Michel di Falco Léandri, um ilustre bispo francês, ele conseguiu uma audiência com o Papa. “Foi incrível encontrar o Papa. Minha mente estava fechada e ele encontrou a chave para abri-la e deixar a luz entrar. É difícil descrever com palavras.”

Inspirado por esse encontro e as críticas feitas mais tarde naquele ano pelo Papa Francisco à “idolatria ao dinheiro” do capitalismo, Kerviel anunciou que não voltaria direto para Paris. Em vez disso, esse católico não praticamente decidiu voltar para casa a pé, percorrendo os 1.400 quilômetros no sentido inverso da Via Francigena, uma rota medieval de peregrinação que leva a Roma. Ele se equipou com um casaco esportivo vermelho, sapatos reforçados e um GPS e partiu, planejando viver de doações dos amigos e de estranhos.

O objetivo da caminhada, diz, é simples: “Quero espalhar a mensagem do Papa de que o sistema é profundamente falho.” Na verdade, para muitos na França, Kerviel se transformou em um tipo de anti-herói da classe trabalhadora. Sua história de insensatez e fraudes inspirou a criação de um fã-clube, um comic book chamado “Le Journal de Jérôme Kerviel” (O Diário de Jêrôme Kerviel) e até mesmo um filme, “Avis de Tempête (Alerta de Tempestade), cujas filmagens começam no mês que vem. Kerviel pode ser culpado, segundo afirmam seus defensores, mas para eles o rapaz proletário da Bretanha é também uma vítima: não só do poderoso establishment político e empresarial que o retratou como um transgressor rebelde, mas também da cultura financeira falha que causou o crash de 2008. Para eles, ele é o garoto do interior que zombou desse sistema e quase quebrou um banco.

“Não desista! A Bretanha inteira e muitos outros estão com você”, escreve um defensor na página de Kerviel no Facebook. “Tenha coragem, somos muitos e estamos com você! Temos o mesmo desejo de uma justiça digna da França”, acrescenta outro.

A simpatia não é universal. O jornal “Le Figaro” descreveu seu encontro com o Papa como uma “adorável e desesperada encenação midiática”. “Jérôme Kerviel não é Robin Hood. Jérôme Kerviel é o operador que perdeu a maior quantidade de dinheiro no mundo”, disse um funcionário do SocGen no primeiro julgamento, um ponto de vista compartilhado por muitos, especialmente a direita política francesa. E embora o banco seja alvo de muitas críticas, até mesmo aqueles que simpatizam com Kerviel têm poucas ilusões sobre o que ele fez e como, por meio de apostas imprudentes com o dinheiro de outras pessoas, ele colocou em risco um sistema inteiro.

No último feriado da Páscoa, tomei o trem que parte de Paris para acompanhar Kerviel em um trecho curto de sua peculiar peregrinação. Imaginei que caminharia para o norte, em direção a Paris, mas, na verdade, ele havia decidido a quatro dias da fronteira com a França, voltar para o sul, em direção a Gênova. Isso acrescentaria pelo menos 400 quilômetros à sua viagem. Ele disse que iria se encontrar com políticos na cidade, mas suspeitei que ele estava também adiando a travessia da fronteira.

Às 10h30 nós partimos, nos afastando da França, ao longo de uma rodovia feia e cercada por depósitos de ferro velho e pedreiras. Kerviel começou a cultivar uma barba de andarilho desde que deixou Roma, e também em belo bronzeado. Acendendo o primeiro de muitos [cigarros] Winston e frequentemente olhando de maneira estranha para as coordenadas de GPS em seu smartphone, ele lembra, num inglês fluente e com sotaque francês, como entrou para o mundo das finanças.

Ele cresceu em uma pequena cidade da Bretanha, onde seu pai era ferreiro e sua mãe cabeleireira, ingressando depois na universidade em Nantes e Lyon, de onde saiu com um diploma em economia e finanças. Em 2000, foi contratado pelo Société Générale. O braço de negócios com títulos do banco estava crescendo e a expectativa era de que ganharia muito dinheiro. “O clima era agressivo, muito agressivo”, diz ele.

Seu primeiro cargo foi no “middle office” (gestão de riscos e desempenho e controle de produtos), iniciando negócios para outros e aprendendo como o sistema funciona – e também como poderia ser manipulado. Ele diz que trabalhou duro para acompanhar os jovens oriundos das melhores escolas, entrando no serviço entre 6 e 7 horas e saindo à meia-noite, todos os dias, abrindo no processo mão do judô, seu único hobby.

Depois de cinco anos ele foi promovido a operador júnior e o primeiro dinheiro que ele ganhou para o banco foi à custa dos atentados terroristas a Londres em 7 de julho de 2005. Ele ganhou cerca de € 500 mil por ter apostado contra as ações da seguradora alemã Allianz. “Meu chefe chegou e disse ‘bom trabalho Jérôme’, o que me fez sentir bem”, diz ele. “Mas cinco segundo depois eu olhei para a TV e vi sangue e corpos espalhados por Londres… Foi difícil engolir aquilo. Mas meus chefes disseram ‘esqueça seus sentimentos, deixe-os fora da mesa de negociações.”

Os elogios dos superiores transformaram-se em seu combustível. “Eu queria aqueles tapinhas nas costas, como todos ali”, acrescenta. Quase que imediatamente ele começou a trapacear. Ele trabalhava na mesa de negociações Delta One, e sua principal função era arbitrar pequenas diferenças de preço entre contratos de derivativos, e não fazer apostas sobre as direções a serem seguidas pelos mercados. Mas por meio de fraudes ele podia assumir grandes posições em aberto. Em 2005 ele ganhou € 4 milhões de para o banco, acima de sua meta, e em 2006 outros € 11 milhões. “Era empolgante ganhar cada vez mais, sabe? O chefe vem e diz ‘Jérôme, você é uma máquina de fazer dinheiro’.”

Foi depois de julho de 2007, quando a crise financeira começava a aniquilar os mercados de ações, que a inicialmente modesta brincadeira com o sistema de Kerviel começou a sair de controle. A situação econômica estava tão ruim, pensou ele, que os mercados só poderiam cair mais. Então, por que não apostar grande? Ele formou uma exposição de € 28 bilhões em poucos meses, fez o lance certo e ganhou a enorme some de € 1,4 bilhão com seus negócios – embora tenha declarado um lucro de apenas € 55 milhões.

“Àquela altura, ninguém reclamava”, diz ele. Mas a soberba subiu à cabeça. No começo de 2008 ele decidiu de repente que os mercados iriam se recuperar, que a onda de vendas (que duraria mais um ano) tinha acabado. Ele formou uma posição de € 50 bilhões, mais que o valor do banco inteiro, desta vez apostando que os preços das ações iriam subir. “Eu estava confiante, embora estivesse perdendo dinheiro, porque eu sempre estivera certo antes”, justifica ele.

Em retrospecto, ele vê que àquela altura já havia perdido o controle. “Eram apenas números em uma tela. Eu nem pensava em termos de dinheiro, apenas de números de contratos… E eu tinha milhares, centenas de milhares”, diz ele, dando uma pausa para checar o telefone, parecendo aflito tanto por causa da história como do sol cada vez mais forte. “A história toda é completamente maluca. Eu fui estúpido. O clima na mesa de negociações é muito incomum.”

Mais tarde naquele mês o jogo havia acabado. O prejuízo final – € 4,9 bilhões – foi anunciado com estrondo. O preço da ação do banco despencou, houve uma emissão emergencial de direitos de subscrição de ações e mais tarde o executivo-chefe do SocGen pediu demissão. Kerviel tomava café da manhã na casa de seu irmão em Paris quando soube das notícias. Ele diz que não conseguiu acreditar que as perdas tivessem sido tão grandes. “Aquele dia foi um pesadelo do qual eu não consigo acordar. Na verdade, os últimos seis anos têm sido um pesadelo do qual não consigo acordar”, lamenta.

No tribunal ele admitiu ter excedido os limites de negociação, a falsificação de documentos e a inserção de dados falsos em computadores, mas afirmou que seus chefes deveriam estar sabendo o que ele estava fazendo, de modo que ele foi na verdade apenas uma engrenagem de uma máquina quebrada, um inocente em um mundo perverso. Mas se ele convenceu parte da audiência, não convenceu os jurados. Em 2010 eles deram a ele não só cinco anos de cadeia – dois em condicional – como decidiram que ele deveria ressarcir os danos de € 4,9 bilhões provocados ao SocGen. Foi provavelmente isso que despertou a psique nacional. Kerviel teria de ganhar € 100 mil por ano – algo próximo do maior salário do SocGen – durante 49 mil anos para devolver o dinheiro ao ex-empregador. Outros simplesmente não conseguiam acreditar que ele havia agido sozinho, que ninguém sabia o que ele estava fazendo. Jean-Luc Mélenchon, líder da coligação Frente de Esquerda, disse que o ex-operador era basicamente inocente e uma “vítima de uma organização poderosa que combina recursos de um banco com os de Estado”. Eva Jolly, magistrada francesa e ex-candidata a presidente pelo Partido Verde, disse: “É o caso de descobrir como um banco consegue dominar um sistema legal, de como as coisas podem ser desiguais.”

A avaliação de Kerviel sobre sua situação é inflexível. “Pense na minha posição. Você é condenado a pagar € 4,9 bilhões, vai para a prisão, tem o sistema judicial contra você. Você não tem mais vida, perspectiva e os amigos que sobram são poucos. É difícil reconstruir a vida com tudo isso pairando sobre você”, diz ele.

Saímos da estrada nesta parte triste da conversa, seguindo um rio quase seco, tudo sob o comando de seu GPS cada vez mais confuso. Com o passar das horas, ele começa a mancar. Um homem grande de camisa regata desce de seu carro, na estrada de terra em que nos encontramos, e nos oferece uma flor, mas depois a pega novamente, dizendo algo em italiano. Kerviel acende um cigarro.

Ele está ficando mais rude quando conversa comigo, mais taciturno. Ele menciona várias vezes detalhes de seu caso mas reluta em falar sobre outras questões. Ele me diz que o último livro que leu foi um panfleto de Jean-Luc Mélenchon que encoraja os cidadãos a promoverem uma revolução contra a elite oligárquica. Pergunto se ele assistiu o filme “O lobo de Wall Street”. Ele responde: “Parei de assistir depois de uma hora. Não gostei nem um pouco.” Pergunto, de brincadeira, se sua mesa de negociações era igual a do filme. “As apostas eram estúpidas, mas não esse tipo de aposta estúpida.”

Toco na questão da psicologia, mencionando aquele que talvez seja o operador sem escrúpulos mais conhecido, Nick Leeson, que em 1995 provocou um prejuízo de 830 milhões de libras, destruindo o venerável Barings Bank no processo. Digo que tanto Leeson quanto Kerviel eram homens da classe trabalhadora que foram empurrados para um mundo elitista. Nenhum dos dois ganhou dinheiro com suas fraudes, além de bonificações ligeiramente maiores, levantando a questão dos motivos que os levaram a assumir os riscos.

Kerviel odeia essas comparações e rejeita sem meias-palavras a ideia de ele ter algum tipo de complexo de inferioridade por vir da classe operária. “As pessoas nas mesas de negociações saem de escolas grandes e de prestígio, mas eu não ligava.” Ele está convencido de que os negócios fraudulentos acontecem em todos os bancos, que o sistema inteiro está quebrado. “Os negócios fraudulentos acontecem o tempo todo. O que acontece é que se eles perdem dinheiro, são demitidos sem barulho. Se eles ganham, ninguém liga. Você imagina que estaríamos aqui conversando sobre se eu ganhei € 4,9 bilhões? Você já ouviu falar de algum ‘rogue trader’ que se deu bem?”

Decorridos seis anos de seus crimes, ele está convencido de que nada mudou. “A cultura continua exatamente a mesma de antes da crise. Todas as pessoas que conheço neste mundo me falam isso.” Ele admite que não fala com mais ninguém do SocGen, mas aponta para o aumento das bonificações, e para a litania de casos legais que pipocam contra os bancos, envolvendo casos como o escândalo da manipulação da Libor e violações a sanções.

Às 15 horas, após quase cinco horas de caminhada, chegamos a uma pousada, a Cascina Vrona. Enquanto comemos uma massa, dividimos uma cerveja gelada à sombra e fica claro por que ele não tem pressa em voltar para a França. A Itália é uma aventura, afastando sua mente dos pensamentos negativos que de outra forma o estariam torturando. Parado pela polícia quando se dirigia para Siena, por estar transitando por uma via expressa, ele estava prestes a receber uma multa quando contou ao policial sobre os € 4,9 bilhões que ele já devia ao SocGen. “O sujeito começou a rir loucamente e disse, ‘tudo bem, nada de multa, pode ir embora'”, diz Kerviel com um raro sorriso na face.

Há também outro motivo para ele sorrir. Quando a justiça rejeitou no mês passado sua apelação final contra as acusações criminais, significando que a cadeia agora era uma certeza, ela derrubou a multa de € 4,9 bilhões por danos, afirmando que um processo civil vai decidir um novo número. Isso foi decidido para refletir o fato de que o SocGen foi de certa forma responsável pelo caso por causa de controles frouxos (o banco foi multado em € 4 milhões pelas autoridades reguladoras por não perceber os sinais de alerta), e representa uma mudança de jurisprudência.

Os danos provavelmente continuam sendo grandes demais e o SocGen disse que de qualquer maneira nunca esperou receber todo o dinheiro de volta, mas Kerviel está esperançoso de que conseguirá virar os holofotes para a instituição financeira, tirando-os todos de si.

Até lá, ele caminha e espera poder continuar fazendo isso. Somente uma sirene ocasional se intromete em seus pensamentos. “É muito gostoso aqui. O sol e o campo quase fazem eu me sentir feliz. Eu só espero que eles me deixem chegar a Paris.”

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marcos

Professor, Embaixador e Comendador MSc. Marcos Assi, CCO, CRISC, ISFS – Sócio-Diretor da MASSI Consultoria e Treinamento Ltda – especializada em Governança Corporativa, Compliance, Gestão de Riscos, Controles Internos, Mapeamento de processos, Segurança da Informação e Auditoria Interna. Empresa especializada no atendimento de Cooperativas de Crédito e habilitado pelo SESCOOP no Brasil todo para consultoria e Treinamento. Mestre em Ciências Contábeis e Atuariais pela PUC-SP, Bacharel em Ciências Contábeis pela FMU, com Pós-Graduação em Auditoria Interna e Perícia pela FECAP, Certified Compliance Officer – CCO pelo GAFM, Certified in Risk and Information Systems Control – CRISC pelo ISACA e Information Security Foundation – ISFS pelo EXIN.