Basileia 3: BC retira crédito tributário do cálculo de alavancagem

Uma das mudanças importantes que o Banco Central (BC) anunciou sexta-feira, ao colocar a proposta de regulamentação do acordo de Basileia 3 em audiência pública, é a retirada dos créditos tributários e dos investimentos em seguradoras do cômputo do capital principal dos bancos, o de mais alta qualidade. A avaliação da autoridade monetária é que tanto os créditos tributários quanto os investimentos em seguradoras não têm a liquidez necessária e são de difícil mensuração.

“Os ativos que comprometem a capacidade de absorção de perdas da instituição, por sua baixa liquidez, difícil mensuração ou dependência de lucro futuro para serem realizados, deverão ser deduzidos do capital principal”, diz o edital da audiência pública.

O texto também detalha o cronograma de implementação das novas regras discutidas e aprovadas pelo Comitê de Supervisão Bancária de Basileia (Basileia 3) no rastro da crise financeira internacional de 2008/2009. A audiência pública terá duração de 90 dias.

No calendário estabelecido pelo BC, a nova regulamentação será implementada dois anos antes do restante do mundo. No entanto, em 2019, prazo final para a transição às regras, todos os países adotarão o mesmo requerimento de capital. Atualmente, a regulamentação prudencial brasileira é mais conservadora do que o padrão internacional, mas o BC decidiu que os índices mínimos de capital dos bancos no país vão obedecer aos termos de Basileia 3.

O índice de Basileia, que mede as exigências de capital das instituições, passará dos atuais 11% dos ativos ponderados pelo risco para um intervalo de 10,5% a 13%, a depender do ciclo econômico.

Os novos parâmetros de capital – o de conservação ou parte fixa e o contracíclico – terão peso de 2,5% cada no índice de Basileia, totalizando, portanto, o máximo de 13%. O capital contracíclico será definido pelo BC a cada ano, podendo ser inferior a 2,5%. O que se espera é que as instituições financeiras acumulem um “colchão” amortecedor em excedente de capital para ser usado em momentos de crise.

Pelo novo acordo, as autoridades reguladoras pretendem evitar que futuras crises bancárias causem tantos danos à economia real.

Simultaneamente ao novo marco de requerimento de capital, Basileia 3 criou um padrão internacional de liquidez (“Liquidity Coverage Ratio”), até então um aspecto negligenciado pela regulação, que exigirá dos bancos a disponibilidade de ativos líquidos realizáveis suficientes para atender integralmente à demanda, numa janela de 30 dias, em situações de crise.

Soma-se a esse conjunto de regras, ainda, o requerimento de capital mínimo para alavancagem. A razão da alavancagem será de 3% do ativos não ponderados pelo risco (com o peso de capital nível 1).

Trata-se de um aperto nas regras prudenciais que deverá ter efeito sobre a oferta de crédito no país. Levantamento feito com dados de 2010 mostrava que se os créditos tributários fossem deduzidos da base de capital de nível 1 dos cinco maiores bancos do país, R$ 64,1 bilhões dos R$ 87,7 bilhões de créditos tributários existentes à época deixariam de valer como referência para alavancagem de crédito.

Esses valores hoje são provavelmente maiores. De acordo com o balanço do Bradesco, de dezembro de 2011, o total de créditos tributários líquidos das obrigações fiscais diferidas atingiu R$ 16 bilhões, o equivalente a 22,5% do patrimônio de referência usado para o cálculo do índice de Basileia, segundo a instituição.

No caso do Itaú Unibanco, o saldo de créditos tributários no fim do ano passado era de R$ 28,3 bilhões. Já no Banco do Brasil, o total dos créditos tributários ativados estava em R$ 22,8 bilhões. No Santander, os créditos tributários registrados chegavam a R$ 15,1 bilhões. Na Caixa Econômica Federal, o total líquido de provisão foi a R$ 13,6 bilhões.

Em recente entrevista ao Valor, o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, ponderou que o Brasil poderia fazer um ajuste no acordo de Basileia 3, em função do tratamento fiscal que é dado às provisões para devedores duvidosos no Brasil, que cria um crédito fiscal maior do que em outros países. Setubal explicou que o crédito fiscal não é dedutível para fins de imposto de renda no momento em que se constitui a provisão, apenas quando a perda se caracteriza de fato. (Colaborou Fernando Travaglini, de São Paulo)

Fonte: Claudia Safatle e Murilo Rodrigues Alves, Valor Economico

Pine vai às Arábias em busca de capital

Logo que Angela Martins entrou na sede do banco Al Rajhi em Riad, capital da Arábia Saudita, no início do mês, ela tirou a espécie de “burca” que cobria todo o corpo, inclusive o rosto, e manteve apenas o véu fino que geralmente emoldura a cabeça das muçulmanas – mulheres são proibidas no banco, ela é uma exceção. Chegava para a primeira de uma série de apresentações de duas semanas na região, com o intuito de aproximar o mercado local (que segue a xariá, o conjunto de regras islâmicas), e o Banco Pine, onde é diretora de negócios internacionais. Segundo Angela, cada vez mais os “petrodólares” de todo o Golfo Pérsico olham com interesse para oportunidades financeiras no Brasil.

No começo do ano o Pine fechou o primeiro “murabaha” entre um banco de capital totalmente brasileiro e bancos islâmicos, em uma captação de US$ 37,5 milhões. Um “muharaba” é uma espécie de empréstimo sindicalizado, mas com lastro em ativos reais (no caso do Pine, contratos de commodities), e é um dos métodos mais populares usado por bancos islâmicos para a concessão de crédito. Além do Al Rajhi, a operação teve participação dos braços islâmicos do Citibank, J.P. Morgan e do Commerzbank. A taxa de retorno a ser paga pelo Pine não foi revelada. “A ideia é fazer uma operação maior no futuro, só com bancos islâmicos”, conta Angela.

Seguir as finanças islâmicas não é obrigatório para nenhum muçulmano, trata-se apenas um segmento de crédito. As regras respeitam o código de leis da religião de Maomé, e proíbem a cobrança de juros e de especulação – nela, o mercado de derivativos não existe -, além de não permitir operações para empresas de bebidas alcoólicas, pornografia e de carne de porco, entre outras. Quem toma dinheiro emprestado sempre dá um ativo real como garantia. Ao longo do tempo esse ativo se valoriza, e então paga-se a quem emprestou parte da valorização – mas não ouse chamar isso de juros.

Na agenda de Angela, no Oriente Médio, foram 40 reuniões com bancos islâmicos, fundos soberanos e investidores do Kuait, Qatar, Bahrein, Abu Dhabi e Dubai, além da Arábia Saudita (Riad e Jidda). Uma das visitas foi aos administradores do fundo soberano de Abu Dabi, cujo patrimônio, estima-se, chegue a US$ 1 trilhão, e que é proprietário de prédios inteiros em zonas comerciais nobres no Rio de Janeiro.

“Em 1996, quando cheguei ao Al Rajhi pela primeira vez, tive de conseguir uma autorização especial da diretoria e não pude tirar a abaia (capa preta que deixa apenas o rosto de fora) nem para fazer a apresentação. Não podia sair nem um fio de cabelo”, conta Angela, lembrando da primeira visita à região.

O desconhecimento das regras financeiras islâmicas no Brasil faz o país perder a oportunidade de abocanhar um segmento de forte crescimento no exterior. Até 2016, o Deutsche Bank estima que o valor total de ativos que respeitam as leis islâmicas no mundo chegará perto US$ 1,8 trilhão, de acordo com relatório recente.

No segmento de “sukuks” – espécie de bônus que pode ser público (soberano) quanto corporativo com lastro em ativos reais, e que paga retornos a partir da valorização desses ativos ao longo do tempo -, foram captados cerca de US$ 84,4 bilhões só em 2011, um crescimento de 62% ante 2010.

Só que a demanda por títulos desse tipo ainda é muito maior do que a oferta, segundo relatório da agência de classificação de risco Fitch Ratings. “Emissores de fora do mundo árabe poderiam contribuir com o aumento de oferta e assim, inclusive, diversificar a sua base”, diz o texto. “O mercado de sukuks está crescendo a uma velocidade rápida, mas as opções ainda são basicamente originárias de países de população majoritariamente muçulmana, como Malásia, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Indonésia, que juntos respondem por 90% desse mercado no mundo”, disse Bashar Al-Natoor, analista da Fitch baseado em Dubai.

Para Salah Jaidah, diretor do segmento de finanças islâmicas do Deutsche Bank, as principais dificuldades de expansão decorrem da falta de opções competitivas de “funding” de longo prazo e em escala. Também não há mecanismos de mitigação de riscos ou um sistema de padronização de regras internacionais, fator apontado por Al-Natoor, da Fitch. A falta de profissinais “fluentes” em finanças tradicionais e nas islâmicas ao mesmo tempo é outro impedimento para a expansão, diz Jaidah.

A França, em 2009, adaptou o seu código financeiro local para se adequar e até incentivar as finanças islâmicas. O governo da África do Sul começou a estudar em dezembro a emissão de “sukuks soberanos”, e a Irlanda cogita utilizá-los como alternativa de funding, já que o país só poderá acessar os mercados por meio da emissão de bonds tradicionais novamente em 2013, devido a acordos feitos com o FMI e União Europeia para resgatar o país.

Assim como o Deutsche Bank, que tem um braço islâmico há dez anos e acompanha o mercado de perto, outros grandes bancos privados mundiais não ignoram esse segmento recheado de gordas cifras. O Reino Unido é o país ocidental com o maior número de instituições que respeitam tais regras, seguido por Estados Unidos, Austrália e França. O Barclays, por exemplo, é um dos gigantes britânicos com forte atuação em finanças islâmicas, e o americano Goldman Sachs está em processo de criação de um programa voltado para emissão de sukuks de US$ 2 bilhões, parecido com outro feito recentemente pelo braço do HSBC no Oriente Médio.

O Banco Central do Brasil não determina nenhuma regra específica para regulamentar as finanças islâmicas por aqui, e nenhum banco nacional tem uma divisão unicamente voltada para negócios do tipo. O BC só proíbe vínculos financeiros entre bancos brasileiros e o grupo Al-Qaeda, o Talibã e o governo do Irã, que sejam estabelecidos por meio de concessão de doações, assistência financeira ou empréstimos, independente de essas transações respeitarem as regras islâmicas ou não. As determinações seguem resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

“Existe muita liquidez nas finanças islâmicas, e os bancos de lá estão se abrindo cada vez mais”, diz Angela, do Pine. Desde que ela voltou à sua rotina brasileira, às vésperas do Carnaval e sem lenço nenhum na cabeça, começou a se preparar para receber os primeiros visitante das Arábias por aqui. “Sou uma viajante de negócios, não questiono as regras deles, faço tudo como pedido”, diz. Pelas regras religiosas, ela só não pode brindar os negócios fechados com caipirinha, com o risco de perdê-los antes de finalizá-los.

Fonte: Filipe Pacheco, Valor Economico

Ameaças na internet somam 75 milhões em 2011, diz McAfee

O número de programas mal-intencionados desenvolvidos para a internet superou a marca de 75 milhões de amostras únicas em 2011, informa relatório divulgado hoje pela McAfee, companhia americana do segmento de segurança da informação.

Segundo o estudo, embora o número de novas ameaças gerais tenha registrado uma desaceleração no quarto trimestre, o volume de ameaças desenvolvidas para dispositivos móveis cresceu e atingiu seu recorde no período e em todo o ano de 2011, com destaque para os ataques focados no Android, sistema operacional móvel do Google.

“O cenário de ameaças continuou a evoluir em 2011 e vimos uma mudança significativa na motivação dos ataques cibernéticos”, diz Vincent Weafer, vice-presidente sênior do McAfee Labs. “Em termos globais, estamos realizando mais transações pessoais e de negócios por meio de dispositivos móveis, e isso está criando novos riscos de segurança e desafios na forma como protegemos nossos dados pessoais e comerciais”, acrescentou.

Em outra frente, a média diária de páginas infectadas no trimestre foi de 9,3 mil sites, contra o índice de 6,5 mil do trimestre anterior. Com o número, o total de páginas que carregam links maliciosos ativos superou a marca de 700 mil no ano, sendo que a maioria delas está baseada em países como Estados Unidos, Holanda, Canadá, Coréia do Sul e Alemanha.

Na categoria de spams – as chamadas mensagens indesejadas -, a McAfee detectou os menores índices globais dos últimos anos, especialmente em áreas como Brasil, Reino Unido, Argentina e Coréia do Sul. Apesar disso, a companhia identificou que essa modalidade vem crescendo em termos de sofisticação.

Em relação às botnets – redes formadas por computadores infectados que são controlados remotamente pelos cibercriminosos –, o estudo mostrou que o número de máquinas infectadas voltou a crescer nos dois últimos meses do ano, com destaque para países como Brasil, Colômbia, Índia, Espanha e Estados Unidos.

O número de denúncias de violações de dados, por sua vez, mais do que dobrou desde 2009, com mais de 40 incidentes divulgados publicamente entre outubro e dezembro.

Fonte: Moacir Drska | Valor Economico

Crise em cartaz

A demissão em massa dos funcionários de uma instituição financeira abre o filme “Margin Call – O Dia Antes do Fim”, candidato ao Oscar em 2012 na categoria roteiro. O formato que o roteirista e diretor J. C. Chandor encontrou para descortinar a crise econômica de 2008 tem explicação. Quando o sistema financeiro entrou em colapso, o próprio Chandor viu seu pai ser demitido do Merril Lynch, depois de trabalhar por 35 anos no banco de investimentos. “O roteiro vem de uma perspectiva muito pessoal e acredito que é isso que faz dele um filme tão incrível. É um conto de advertência”, disse ao Valor a produtora, Rose Ganguzza.

A chamada “crise do subprime” – em referência ao crédito imobiliário com alto risco de inadimplência que capitaneou o colapso – não inspirou apenas Chandor, estreante em longa-metragens. “Inside Job”, traduzido no Brasil para o nada explicativo “Trabalho Interno”, de Charles Ferguson, foi premiado com o Oscar de documentário no ano passado. Lançado em DVD no Brasil sem passar pelo cinema, há ainda “Capitalismo: Uma História de Amor”, de Michael Moore.

No plano da ficção, está “Wall Street – o Dinheiro Nunca Dorme” e, com um pé na ficção e outro na realidade, “” (“Too Big to Fail”). Grande Demais Para QuebrarA produção para TV da HBO estreia em DVD no Brasil no primeiro semestre. Em uma lista à parte, em que a crise é pano de fundo para um filme para lá de mamão com açúcar, aparece “Larry Crowne: o Amor Está de Volta”.

Com exceção de Larry Crowne – que ensina americanos demitidos a aproveitarem o momento para estudar e amar -, os filmes que retratam a crise carregam uma boa dose de crítica. “É claro como água para quem presta atenção. A mãe de todos os males é a especulação, dívida alavancada”, diz Gordon Gekko, em palestra a estudantes de uma universidade em “Wall Street – o Dinheiro Nunca Dorme”. No filme, ele deixa a prisão onde ficou por oito anos por fraudes financeiras cometidas em “Wall Street – Poder e Cobiça”, lançado em 1987.

No filme de Oliver Stone, o clima de crítica vacila diante da trama afetiva entre Gordon Gekko e sua filha. Já em “Margin Call”, não há espaço para final feliz. “Nós discutimos muito se os personagens principais deveriam ou não aparecer algemados no fim do filme, mas, na realidade, nós sabíamos: não foi assim que as coisas aconteceram. Esses homens foram viver outro dia e provavelmente cometeram os mesmos atos de antes”, diz Rose.

Mesmo com o reforço do cinema, a produtora de “Margin Call” não é muito otimista sobre o poder educativo da crise. “Em última análise, precisamos fazer a pergunta: o que aprendemos com tudo isso? A resposta assustadora é provavelmente ‘nada’.”

Se é que não tem o poder de transformar, o cinema tem ao menos a capacidade de fazer pensar, na opinião da cineasta e professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), Dacia Ibiapina. “Estamos vivendo em um mundo de muita informação, mas ela precisa ser sistematizada e organizada. O cinema, por ter uma temporalidade distinta dos outros meios de comunicação, em que tudo é muito rápido, tem a capacidade de mergulhar mais fundo, suscitar reflexões.”

O cinema reflete cada vez com mais velocidade os fatos contemporâneos, na opinião de Luiz Nazario, professor de história do cinema da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFGM). “Hoje o cinema é uma fábrica de realidade”, diz. No contexto histórico, ele afirma que o momento estaria mais para os irmãos Lumière do que para Georges Méliès. Na França do fim do século XIX, os filmes de Lumière eram gravados na rua e retratavam a realidade, enquanto os de Méliès preferiam os cenários fictícios.

O mix mais evidente do cotidiano com a ficção dá-se em “Grande Demais para Quebrar”. Os personagens são representados por atores, mas recebem os nomes reais. Paul Giamatti, inclusive, tem uma semelhança desconcertante com Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve, o banco central americano. O papel rendeu a ele o Screen Actors Guild por atuação excepcional em série de TV. Diretores e a produção foram indicados para o Emmy e o Globo de Ouro.

“Essa fluidez da fronteira entre ficção e realidade é uma tendência do momento. Até porque alguns eventos conseguem superar a capacidade de invenção do cinema”, diz Dacia. No caso de “Grande Demais para Quebrar”, o livro inspirador, do jornalista Andrew Ross Sorkin, já deixou as pistas para construção da trama realista. Em visita ao Brasil em 2011, Sorkin disse que, ao fazer entrevistas para o livro, pedia ao interlocutor que contasse onde estava e o que fazia no momento em que recebeu determinada ligação ou que tomou alguma decisão sobre a crise.

Já “Trabalho Interno” ficou somente no campo da realidade. “Se fosse apresentado para mim como uma tese de doutoramento em economia, eu não teria nenhuma dúvida em aceitar”, diz o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, professor emérito da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Cinéfilo desde os 16 anos, quando fez um curso de cinema no Museu de Arte de São Paulo (Masp), Bresser-Pereira acompanha de perto o circuito de filmes de economia. Para ele, o documentário de Ferguson faz uma avaliação bem estruturada do “fracasso” dos economistas neoclássicos em administrar a economia mundial. A obra pode ter convencido a opinião pública, segundo ele, mas não foi capaz de respingar na teoria. “Mexer no ensino da economia e nessa redoma acadêmica é mais difícil.”

“Margin Call”, para o economista, retrata bem a realidade do mercado financeiro. Um momento crucial do filme é quando a instituição financeira oferece altíssimos bônus aos funcionários para que passem à frente ativos com alto risco de inadimplência que, sabiam eles, valeriam nada em pouco tempo.

A falta de controle dos altos executivos do banco sobre os riscos assumidos pela instituição e a ausência de preocupações morais chegam a ser caricaturais no filme de Chandor. “Só há três maneiras de vencer nesse negócio: seja o primeiro, seja o mais esperto ou trapaceie”, diz John Tuld, CEO da instituição financeira. Não passa despercebida a semelhança com o nome de Dick Fuld, que comandava o Lehman Brother’s, banco de investimentos que quebrou em 2008.

A crítica ácida de “Trabalho Interno” e de “Margin Call” não atraiu tanto o brasileiro quanto “Larry Crowne: O Amor Está de Volta”. O casal Tom Hanks e Julia Roberts arrebatou 396 mil pessoas ao cinema, em uma bilheteria de R$ 4,2 milhões, enquanto o público dos outros dois não passou de 25 mil pessoas, segundo o site especializado em cinema Filme B. A diferença de linguagem é certamente o que separa as produções. Nos filmes que tratam diretamente da crise, desfilam termos nada populares, como “value at risk” e risco moral. “Assim como a moda e o consumo, o cinema está cada vez mais segmentado”, diz Dacia.

A crise é pano de fundo em “Larry Crowne”. O romance é entremeado por tentativas do personagem de quitar suas dívidas e evitar a entrega da casa hipotecada, que havia despencado em valor. No filme, dirigido pelo próprio Tom Hanks, ser demitido até parece bom. Talvez seja mesmo para quem tropeça em Julia Roberts enquanto busca refazer a vida.

Em uma lista de mais de 200 filmes a serem lançados no Brasil em 2012, do site Filme B, nenhum é sobre a crise. Parece que o tema se esgotou. Pelo menos até o próximo colapso, que certamente virá, segundo o personagem de Michael Douglas em “Wall Street”: “As bolhas acabam com os excessos, reduzem as manadas, mas nunca morrem. Elas voltam em formatos diferentes”.

Educação financeira com pipoca

Cinco carros na garagem, televisor de plasma de 180 polegadas na sala e jet ski na piscina. O consumismo exacerbado será levado ao limite no filme “Até que a Sorte nos Separe”, com estreia prevista para 12 de outubro. A inspiração é o livro “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos”, publicado pelo consultor financeiro Gustavo Cerbasi.

Nas livrarias, as vendas passam de 4 mil por mês e a estimativa é chegar a 1 milhão até o lançamento do filme. No cinema, com um investimento de R$ 5, 5 milhões, a expectativa é ultrapassar esse número. As últimas produções brasileiras – como “O Palhaço” e “Cilada.com” – atraíram cerca de 3 milhões de pessoas ao cinema.

O formato escolhido foi o de uma comédia romântica, um desafio para a produtora. “A Gullane tem tradição em filmes um pouco mais autorais e histórias mais densas, mas enxergamos uma oportunidade de entrar na comédia, com a condição de que achássemos um elenco que realmente levasse à risada”, diz o sócio-diretor Caio Gullane. A produtora tem no portfólio “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, “Carandiru” e “Bicho de Sete Cabeças”.

Já o roteirista tem raízes cômicas. É Paulo Cursino, o mesmo de “Sob Nova Direção”, da TV Globo. Os atores Leandro Hassum e Danielle Winits vão formar o casal consumista. Premiados na loteria, eles levam uma vida sem regras financeiras. Isso até que ele descobre, dez anos depois, que a família está completamente falida. O momento é o menos propício possível, já que a mulher vive uma gravidez de risco. O contraponto será a família vizinha, que evita todos os prazeres que envolvam gastar dinheiro.

O ensinamento do filme será o equilíbrio. “Na linguagem do mercado financeiro, nossa opção seria pelo moderado”, brinca Gullane. A mensagem é que dinheiro é bom, mas não é tudo. Frases do livro de Cerbasi vão aparecer em cartões ao longo do filme. “A ideia é, sim, educar, mas na forma de diversão”, diz o consultor financeiro.

No livro, Gustavo Cerbasi defende que grande parte dos problemas de relacionamento dos casais começa no dinheiro – no excesso ou na falta dele. Os dois muitas vezes não percebem, entretanto, que a origem dos conflitos é financeira.

A ideia de levar a obra às telas partiu da distribuidora brasileira Paris Filmes, que procurou o consultor. Para ele, é um sinal de que a demanda existe. “É o primeiro filme no Brasil que começa pela bilheteria”, diz Cerbasi, que participa da produção como sócio e consultor.

“A economia vai bem, as classes C, D e E ganharam poder de consumo e as pesquisas têm mostrado que as pessoas estão mais preocupadas em como administrar o seu dinheiro”, afirma o diretor do filme, Roberto Santucci. A gravação, no Rio de Janeiro, começou no dia 26 de janeiro e a previsão é que se encerre em 10 de março.

O livro de Cerbasi atravessou o oceano e chegou a Portugal, Espanha e Moçambique. Essa também é uma possibilidade para o filme, segundo Gullane. “Temos um circuito bastante habitual em outros países.”

No Brasil, há espaço para a educação financeira. A busca por crédito cresceu 8% em 2011, depois de ter avançado 16% em 2010, segundo a Serasa Experian. Somente em janeiro, a inadimplência aumentou 17% ante o mesmo mês de 2011. Resta saber se esses consumidores querem ser educados.

Fonte: Luciana Seabra, Valor Economico

Mercado usa tecnologia para manter investidores na Bolsa

As corretoras investem em tecnologia para enfrentar a saída de investidores da Bolsa, provocada pela instabilidade do mercado. Novas ferramentas tentam popularizar operações complexas ao pequeno investidor.

“[As ferramentas] Abrem mais opções; em vez de comprar e torcer para subir, o investidor tem muito mais alternativas. É de esperar que essa ‘migração’ comece a crescer”, afirma Paulo Levy, diretor da MyCAP, home broker da corretora Icap.

A empresa habilitou no fim do ano passado uma ferramenta para que o pequeno investidor possa fazer sozinho, no home broker (negociação via internet), a chamada “venda a descoberto”, que permite ganhar com a queda das ações.

“A ideia é procurar diversificar as operações, hoje bem limitadas, e dar oportunidade para o cliente proteger sua carteira a fim de que consiga se manter no mercado”, diz Bruno DiGiorgio, superintendente da Banifinvest, que acaba de lançar uma ferramenta de auxílio para uma operação complexa.

Pesquisa da Folha encontrou lançamentos de programas semelhantes em cinco corretoras.

Segundo especialistas, essas tentativas de estancar a saída do pequeno investidor quando o mercado acionário está sofrendo acaba contribuindo para o processo de amadurecimento desse público na Bolsa.

“Eram operações usadas pelos gestores de fundos. De dois anos para cá, a pessoa física começou a buscar ganhos alternativos. Agora, mesmo que o mercado fique mais definido, vai ter uma demanda cativa”, diz Silvia Werther, diretora da Ativa Corretora.

Em 2011, a Bolsa amargou interrupção no processo de expansão no número de novos investidores pessoa física, que vinha desde ao menos 2002. A queda de 18,11% do Ibovespa contribuiu para a saída de 30 mil pequenos aplicadores.

META ADIADA

Também no ano passado, e como reflexo da instabilidade, a BM&FBovespa tomou a decisão de postergar, de 2015 para 2018, a meta de alcançar 5 milhões de investidores pessoa física. Ao final de 2011, eles eram 583,2 mil.

“Ampliamos o prazo porque há uma crise. O mercado está funcionando de forma diferente do normal”, diz Patrícia Quadros, gerente dos programas de popularização da BM&FBovespa.

Ela vê um amadurecimento desse público após o período de hiperinflação, que impedia a maior participação do investidor pessoa física, mas diz que há muito a fazer.

Para enfrentar a crise e reforçar os programas de popularização, a Bolsa lançou, no fim de 2010, um programa para premiar o investidor que permanece mais tempo e indica amigos ao mercado.

Aplicativos levam a Bolsa para a palma da mão

Se o amadurecimento e a manutenção do pequeno investidor na Bolsa passam por tecnologia, o mercado avança agora no próximo degrau da evolução: a palma da mão.

Aplicativos para smartphones e tablets já permitem fazer operações, além de acompanhar cotações em geral. No site da Bovespa, a ferramenta aparece em 25 das cerca de 100 corretoras listadas.

Segundo o gerente da Socopa Fabrício Tota, o recém-lançado aplicativo é usado por clientes em intervalos curtos, como na espera de uma consulta.

“Ele quer acompanhar mais de perto para entender como as coisas se relacionam no mercado. Informação é importante para que ele resista e fique na Bolsa.”

CUIDADOS

Para Rafael Paschoarelli, professor de finanças da FIA, o amadurecimento do investidor criou demanda por ferramentas que fujam do óbvio. Ele deixa o alerta, contudo, para que a pessoa só faça operações que entenda. “Se não entende, mantenha-se fora.”

Paschoarelli aposta em maior participação da pessoa física. “Com a queda dos juros, a Bolsa vai se consolidar como opção de longo prazo superior à renda fixa.”

Fonte: Gabriel Baldocchi, Folha de S.Paulo